D30D :: menos 30 coisas em 30 dias – reflexões do desafio

Não temos apenas necessidade de possuir coisas pela sua utilidade. Também possuímos coisas porque são belas, porque nos lembram quem somos, o que fazemos – porque representam os nossos sonhos. E estas coisas não são apenas um símbolo para os outros; estas coisas são sobretudo e mais que nada uma representação da pessoa que nós somos, para nós mesmos.

Por isso é que é tão difícil libertarmo-nos da “tralha”.

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Este foi um mês incrível.

Consegui libertar-me 34 coisas (umas doadas, outras vendidas, outras devolvidas, outras deitadas fora) – mas falhei na minha tentativa de não gastar dinheiro em coisas que não fossem tangíveis ou absolutamente essenciais – na antevéspera de concluir o desafio encontrei *os sapatos* de que andava à procura há meses… E não resisti.

O processo

Houve várias coisas que fiz neste processo e várias coisas que, não sendo propositadas, ajudaram neste projeto.

Como o desafio começou na mesma altura que as obras em minha casa, o início teve de se focar em coisas que tinha no quarto (a única divisão não afetada pelas benditas obras). Assim, no primeiro dia abri o sítio onde tinha as carteiras e os produtos de beleza e encontrei as coisas que apesar de gostar, já tinha há muito tempo embora não usasse: uma coleção enorme de amostras de perfume, uma carteira giríssima que usei apenas 2 ou 3 vezes, esponjas para aplicar sombras de olhos que tinha a mais, um verniz que a minha irmã tinha comprado e que nenhuma de nós usa, etc. Levei para um jantar de amigos e ofereci a quem quisesse.

Tenho a dizer que esta foi uma atividade superdivertida. Fartámo-nos de rir e quase todas as minhas amigas (e alguns amigos) ganharam qualquer coisa para si mesmos no dia do nosso jantar.

Como estava muito comprometida com esta ideia, mas tinha bastantes dificuldades em identificar o que é que das coisas que estavam à vista, não me era indispensável, continuei a explorar as minhas gavetas e armários. Percebi uma coisa incrível: tinha várias coisas em duplicado, adquiridas com a ideia de ficarem como “backup” (e.g. produtos de higiene ou produtos alimentares, mas também produtos não perecíveis e não essenciais que não uso com frequência). Percebi a meio do mês (apenas, porque é difícil sair do mindset coletor que a nossa sociedade nos implementa) que tinha mais coisas em duplicado do que realmente preciso de precaver.

Depois de perceber que havia tanta coisa em minha casa que eu, na verdade, não usava, optei por começar a juntar as coisas num sítio específico e dar-lhes utilidade ou destinatário.

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Umas amigas tomaram a espetacular iniciativa de fazer uma troca de roupas e sapatos que já não usamos. Foi incrível. Saímos deste encontro cheio de gargalhadas e cumplicidade com coisas giras e novas (pelo menos para quem as recebeu) e o resto foi doado a outras pessoas/instituições; e além de tudo, pudemos libertar-nos das coisas que efetivamente já não usamos, mas que também não temos coragem de deitar fora porque ainda estão boas e são bonitas. Recomendo tanto que façam esta experiência! Saí deste encontro com menos umas coisas que não usava e mais umas peças que estou a usar imenso – a custo zero 🙂

Depois, apareceram oportunidades soltas de dar coisas a quem as aprecia: tinha umas sapatilhas muito boas da ASICS que não eram adequadas para mim e me faziam fasceite plantar; ofereci-as a uma colega que corre. Uns dias mais tarde, comentava ela comigo que estava mesmo contente com as sapatilhas e que com estas “quanto mais corre, mais vontade tem de correr”. Fixe, não é? E eu estava tão cheia de remorsos pelas sapatilhas que não uso e afinal, agora sim, elas estão a ser apreciadas.

Vendi um par de coisas no OLX, que estando boas, estavam encostadas há imenso tempo cá em casa; usei o dinheiro que fiz para colocar alfinetes numas libelinhas que tinha incompletas desde que vim para o Porto, à espera de serem concluídas. Estas libelinhas entre vendidas e oferecidas, também já têm mais ou menos destino.

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Dei várias coisas para o infantário-IPSS ao pé de minha casa que podem servir para os miúdos brincarem (uma caixa de lápis que tinha a mais e uns joguinhos) e ganhei coragem para deitar algumas coisas fora que estavam partidas e das quais eu tinha pena, bem como de uma blusa que eu gostava muito, mas que estava mesmo muito gasta (e que agora limpa o pó lindamente!). Deitei fora jornais antigos da Universidade e com isto finalmente digitalizei artigos meus e entrevistas desse tempo. Ainda deu para partilhar com amigos da faculdade com quem mantenho contacto e para nos rirmos um bocado.

Devolvi os livros que me tinham emprestado quase todos (os restantes estão à espera de um encontro com os seus respetivos donos).

O meu calcanhar de Aquiles da tralha

Neste mês percebi que o meu real problema na acumulação de objetos é que eu sou uma acumuladora de livros. A sério, vocês não imaginam a quantidade imensa de livros que estava no meu pequeníssimo apartamento. Confesso que dei alguns (poucos) livros à Biblioteca da minha Escola (que é uma coisa que eu já faço de vez em quando, quando finalmente aceito que não vou ler mais o livro A ou B, ou que pelo menos não preciso mais de o possuir – e ainda assim posso sempre tê-lo disponível quando o quiser ler de novo), mas a grande maioria dos livros que eu não estou a usar transitou para casa dos meus pais, o que no fundo é um pouco fazer batota (embora os livros não tenham entrado para a contagem)… Mas enfim, isto é um processo e eu ainda estou a aprender o desapego às coisas.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro

(Caetano Veloso, “Livros”)

Penso que se contabilizar entre livros que foram para casa dos meus pais e as coisas que contei neste desafio, a minha casa tem um défice de mais do que 100 objetos, comparativamente com o mês passado.

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Os efeitos e as reflexões

Este desafio teve IMENSOS efeitos colaterais.

Para já, obviamente, tenho mais espaço em casa e é mais fácil de encontrar as coisas e de as arrumar. Mas não foi apenas esse o grande efeito deste projeto.

Os livros em particular fizeram uma grande diferença para mim, em minha casa. Acho que no fundo o que acontece é que eu compro livros quando quero investir numa nova área do saber ou quando quero fazer um projeto novo. Ter tantos livros (que eu depois até não uso) dá-me a sensação que estou envolvida em muita coisa, que, de alguma forma, a minha vida tem sentido, que estou a fazer “coisas” – não sei se dá para perceber esta lógica… Mas os livros, o objeto físico, também acabam por me manter alguns projetos em mente e de alguma forma contribuem para eu não ter tanto foco e me sentir mais assoberbada (porque há TANTO para fazer).

Deixar os livros ir (embora para não muito longe), em particular, teve a grande benesse de me ajudar a concentrar mais. E com o passar do mês comecei a estender esta filosofia também para outras áreas da minha vida e para outros projetos; comecei a concluir mais tarefas e projetos, a ser muito mais dirigida nos meus esforços, e a apreciar o espaço vazio – que era uma coisa que, de alguma forma, me assustava.Noto ainda que tenho menos coisas à vista em casa e que as coisas estão claramente mais arrumadas, o que é profundamente estruturador para mim.

No fim do mês, coincidiu de eu ir a um workshop na delegação do Porto da União Budista. Eu fui apenas porque queria estar com amigos que já não via há muito tempo e para experimentar qualquer coisa nova, mas não me apercebi bem na altura que o workshop tinha tudo a ver com este desafio. O workshop era “The grace of Fall”: era sobre “letting go” e foi organizada por uma grande amiga, a Deidre.

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Quando saímos, estávamos a falar do meu desafio de 30 dias e de outras coisas relacionadas; comentávamos que em situações mais difíceis, ou mesmo no mudar da estação, sentíamos necessidade de comprar coisas, porque “vão ser necessárias” – e a verdade é que nem sempre isso acontece. Há muitas coisas que possuímos não por uma objetiva necessidade do objeto em si, mas por uma subjetiva necessidade de segurança, de sabermos que “se precisarmos, temos”.

E que por vezes os objetos nem sequer têm uma finalidade específica, uma “função”, mas nós apegamo-nos imenso a eles. E geralmente é porque esses objetos representam ou alguma parte da nossa pessoa (não o corpo físico, mas os nossos valores, sonhos, objetivos, projetos) que queremos preservar, da qual nos orgulhamos, ou a pessoa que nós queremos ser. E se por vezes compramos coisas para mostrar aos outros, mais frequentemente não conseguimos deixar as coisas partir, porque elas nos lembram a nós quem  é que nós somos e quem é que nós queremos ser.

Interessante, não é? Pensem lá num objeto que vocês valorizem particularmente e vejam se isto vos faz sentido.

Não é o mesmo que dizer que estas coisas são fúteis: não me passa pela cabeça, por exemplo, deitar fora o origami que a Aninha me fez para o carro, porque não a vejo muitas vezes, mas lembro-me dela sempre que ando de carro e a lembrança deste gesto em especial tem sempre o dom de me fazer sorrir. Mas a verdade é que a pessoa que nós somos é essencialmente a mesma com ou sem coisas (mesmo os origamis dos amigos queridos) – talvez um pouco mais livre sem coisas para manter.

Ah! Sim! e ao longo deste mês, confesso que me senti um pouco mais rica; não sei explicar, mas com menos coisas em casa, tornou-se óbvio de que preciso de menos do que estimava e portanto tenho mais recursos disponíveis… Por outro lado, dar coisas, atenção, carinho é uma atividade muito satisfatória, em geral! Experimentem!

No fundo, consegui perceber que estou longe de ser uma minimalista, e que tenho muito trabalho que fazer nesta área do apego às coisas (especialmente aos livros), mas a verdade é que este exercício foi gerador de imensa criatividade e me trouxe mais para perto de imensas coisas, ideias e pessoas super positivas – e eu acho que isso aconteceu porque me consegui desapegar um pouco daquilo que já não era tão bom para mim.

Recomendo mesmo este desafio – e vou continuar a tentar manter esta filosofia permanentemente.

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Um pensamento sobre “D30D :: menos 30 coisas em 30 dias – reflexões do desafio

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