[Livros] #4 Allegro ma non troppo – as leis fundamentais da estupidez humana

Título :: Allegro ma non troppo – seguido de As leis fundamentais da estupidez humana

Autor :: Carlo M. Cippolla

Editora :: Edições Texto & Grafia (1988)

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O meu contexto

Este livro foi-me emprestado há meses pelo bibliotecário da ESTSP, Dr. Manuel Brandão. Achei muita piada ao título, mas demorei uns tempos a pegar nele e ainda mais tempo a decidir-me a fazer este resumo. O livro em si lê-se numa tarde muito bem passada e divertida.

Algumas ideias

O livro está escrito com um sentido de humor apuradíssimo e muito inteligente. Divide-se em duas partes que são dois ensaios.

1. “O papel das especiarias (e da pimenta em particular) no desenvolvimento económico na Idade Média

2. As leis fundamentais da estupidez humana

1. “O papel das especiarias (e da pimenta em particular) no desenvolvimento económico na Idade Média

No primeiro ensaio, Cipolla desenvolve um divertido ensaio explicando porque e como é que a pimenta foi a alavanca para retirar a Europa da Idade Média para o Renascimento.

Ideias tão remotamente cabíveis como proximamente divertidas, como a importância da pimenta que “é, como se sabe, um poderoso afrodisíaco” (pp.21) e de como foi este facto o real objetivo das cruzadas e da reconquista do território europeu aos bárbaros.

Neste argumento, junta-se a criação do cinto de castidade (e como este despoletou uma forte expansão na metalurgia primeiro, a pedido dos maridos, e depois na serralharia, a pedido dos amantes), a real razão pela qual os vikings passavam tanto tempo longe das suas esposas, fórmulas matemáticas (pois claro! onde constam como variáveis quer o consumo da pimenta quer o seu potencial afrodisíaco), a produção de lã na Inglaterra e de tecidos de lã em Itália, a produção de vinho em França e a exuberância de Leonor de Aquitânia, a peste e os bancários florentinos – e todas estas ideias de forma tão elegante e coerente que tudo parece fazer sentido e a conclusão parece clara e evidente – apesar de ser obviamente humorística.

 2. As leis fundamentais da estupidez humana

O segundo ensaio é aquilo que trouxe fama a este pequeno livro e é verdadeiramente genial. Dotado do mesmo sentido de humor a que Cipolla nos habitua no primeiro ensaio, este reveste-se da aparência de um tratado, com leis, gráficos, equações e corolários – como se a estupidez humana fosse seriamente cientificável.

As leis fundamentais da estupidez humana são:

1. “Sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos em circulação.” (p.59)

2. “A probabilidade de que certa pessoa seja estúpida é independente de qualquer outra característica da mesma pessoa.” (p.62)

3. “Uma pessoa estúpida é aquela que causa um dano a outra pessoa ou a um grupo de pessoas, sem retirar qualquer vantagem para si, podendo até sofrer um prejuízo com isso.” (pp.69-70)

4. “As pessoas não estúpidas desvalorizam sempre o potencial nocivo das pessoas estúpidas. Em particular, os não estúpidos esquecem-se constantemente de que, em qualquer momento e lugar, e em quaisquer circunstâncias, tratar ou associar-se com indivíduos estúpidos traz infalivelmente consequências que se pagam muito caro.” (pp. 84)

5. “O estúpido é o tipo de pessoa mais perigoso que existe.” (pp.85)

O corolário desta última lei é que:

“O estúpido é mais perigoso do que o bandido.” (pp.85)

 O autor defende que há 4 tipos de pessoas: os inteligentes (que ganham em situações em que fazem também os outros ganhar), os bandidos (que ganham em situações em que fazem os outros perder),  os ingénuos (que perdem em situações em que fazem os outros ganhar) e os estúpidos (que perdem em situações em que fazem também os outros perder), como se pode verificar no gráfico infra.

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Depois de muito cogitar acerca da estupidez humana, Cipolla termina o ensaio com uma macroanálise da estupidez, explicando porque é que nos países em declínio aumenta o número de estúpidos e como é que isso leva um país à ruína.

O livro é realmente muito divertido e vale a pena ler ambos os ensaios.

Mais algumas palavras sábias deste livro:

“quando se sofre de enjoo, a última coisa que se pode desejar é que nos apareça pela frente um pirata muçulmano” (pp.29)

“Mas mais: do ponto de vista psicológico, foi um autêntico choque. Então, se no mundo dos negócios já não se pode confiar num nobre inglês, em quem diabo mais se pode confiar? Os florentinos retiraram disso as conclusões lógicas: largaram o comércio e a banca, e entregaram-se à pintura, à cultura e à poesia. E assim teve início o Renascimento, enquanto sobre a Idade Média descia a palavra.” (pp.53)

“A maior parte das pessoas não age com coerência. Em certas circunstâncias uma pessoa age de forma inteligente, e noutras essa mesma pessoa comporta-se de forma ingénua. A única importante exceção à regra é representada pelas pessoas estúpidas que, normalmente, mostram a máxima propensão para a plena coerência em qualquer campo de atividade.” (pp.73)

“Essencialmente, os estúpidos são perigosos porque as pessoas razoáveis têm dificuldade em imaginar e compreender um comportamento estúpido” (pp.79)

“Não temos nenhum meio racional de prever se, quando, como e por que motivo uma pessoa estúpida vai levar por diante o seu ataque. Perante o seu ataque estamos por completo à sua mercê.” (pp.80)

“Ao contrário de todas estas personagens [o bandido, o inteligente e o ingénuo], o estúpido não sabe que é estúpido: e isso contribui portentosamente para dar maior força, incidência e eficácia à sua ação devastadora.” (pp.81)
cipollaCarlo M. Cippolla
(1922-2000)
 

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