D30D :: um mês sem séries de televisão

Depois de umas semanas a preparar-me para este desafio(como é visível por este e este post) comecei a ordália a 1 de dezembro. Foi um mês em que descobri muito sobre mim mesma e a minha necessidade de estar ligada à tecnologia, mas também me tornei mais consciente do tipo de muletas emocionais que uso quando as coisas estão menos bem. Ao fim ao cabo posso dizer que sem esta espécie de “analgésico” mental tive de realmente cuidar mais de mim e das pessoas à minha volta.

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“Que ideia foi essa?!” foi algo que me perguntaram com grande frequência ao longo deste mês – bem como o já tradicional comentário a este tipo de desafios “não percebo porque é que fazes estas coisas a ti mesma”.

Na verdade foi tão difícil conseguir disciplinar-me para este desafio que me questiono sinceramente se não o devo prolongar no tempo.

As regras este mês eram simples: nada de séries de TV; e ao mesmo tempo complexas: e de preferência nada de conteúdos audiovisuais de entretenimento, especialmente em casa e sozinha (ou seja, fora de um contexto social/interacional).

A parte das séries foi canja comparada com a segunda parte que – obviamente – não consegui plenamente cumprir. E fiquei ao longo do mês com algumas dúvidas pessoais acerca de alguns limites; por exemplo, ouvir espetáculos de stand up deveria contar? Podcasts, contam? TED talks, contam? (rádio decidi que não conta).

No entanto deu para eu perceber este padrão de “craving” de conteúdos de entretenimento. Os momentos em que eu realmente senti um grande “craving” por entretenimento audiovisual foram os momentos em que estava mais triste. De resto estes são também os momentos em que sinto mais vontade de comer doces, mais sono e em que é mais difícil disciplinar-me para fazer seja o que for (porque basicamente, dependendo do nível de tristeza, pode simplesmente apetecer-me deitar-me na cama e dormir com qualquer coisa a dar no pc, para fazer de conta que está tudo bem, até passar a neura).

spiritual-pollution-tvOutros momentos em que me apetece muito ver qualquer coisa de entretenimento é antes de começar a fazer qualquer tarefa que me parece menos agradável, ou mesmo durante essa mesma tarefa (é uma espécie de fuga, no fundo).

Olhando em retrospectiva acho curioso, mas expectável.

Esta necessidade que sentimos de ouvir outros (outras vidas, outras histórias, outros raciocínios) distrai-nos muitas vezes da nossa própria vida e preenche um vazio com que nó e a nossa sociedade e o seu constante acesso a tecnologia cada vez menos conseguimos aceitar e gerir.

Será que nos esquecemos de como é estarmos sozinhos connosco mesmos? Será que as nossas vidas não nos bastam? E se assim é, porquê, se temos vidas mais preenchidas e com mais opções do que qualquer outra geração? Será que precisamos mesmo de estar conectados 24 horas por dia?

Ao longo deste mês fui comentando com outras pessoas este meu desafio (que de resto está muito na linha do desafio anterior) e o tipo de reações foi bastante variado, desde incredulidade absoluta de “ai, esse é que eu não conseguia!” a comentários de “a sério? Estavas assim tão viciada?”.

O facto é que as gerações mais novas (aka os meus alunos) referem com frequência o “ver um episódio de uma série” como um mecanismo de procrastinação de tarefas menos positivas –  e suponho que também usarão como mecanismo de coping (tudo para dizer que sou muito hip, até nos meus vícios).

Além de me ajudar a compreender melhor qualquer coisa sobre mim mesma, entre os efeitos deste mês sem séries contam-se:

  • Passei mais tempo fora do pc: tempo de descanso foi efetivamente tempo de descanso também para os meus olhos (e consequentemente reduzi as minhas frequentes dores de cabeça – milagre! milagre!);
  • Li mais livros;
  • Fiz menos intervalos, mas os que fiz tiveram mais qualidade;
  • Falei com mais pessoas;
  • Concretizei mais projetos;
  • Fui mais criativa;
  • Estive mais a par das notícias (o que até é algo paradoxal, uma vez que eu via sempre o Daily Show);
  • Organizei mais a minha casa e consegui continuar o projeto de reduzir o número de coisas cá por casa com maior facilidade;
  • Percebi melhor o tipo de música que é boa para me concentrar;
  • Fui muito mais eficiente;
  • Escrevi mais;
  • Senti-me muito menos “distraída” em geral, senti-me mais “presente” e “consciente”.

Ou seja, custou como o raio, mas valeu mesmo a pena. Que é como quem diz: vamos lá a passar isto para um desafio anual?…

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(ou seja, esta é a altura em que começam a bater os medos: será que sou capaz? será que me vou transformar numa pária? Será que vou deixar de perceber as piadas dos outros? Será que vou perder a minha inspiração? Será que vou conseguir? De onde vai vir o meu sentido de humor? Oh my god!)

Que comece 2015, “O ano sem televisão”

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