Poemário #8 “A Tua Morte em Mim” de Adolfo Casais Monteiro

A Tua Morte em Mim

       À memória de Raquel MoacirA tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
descobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido.

Adolfo Casais Monteiro, in ‘O Estrangeiro Definitivo’

autorid01694
(1908-1972)
Ouvi este poema pela primeira vez no lançamento do livro “Sem ti, Inês” de Ana Granja (disponível aqui).  O livro falava da filha da autora e o poema foi lido ou pela própria ou por outro pai/mãe que também tinha perdido um/a filho/a e fez sentido para mim instantaneamente.
 
Para mim, este poema simboliza a permanência da morte em contraste com a mutabilidade da vida: a pessoa morre uma vez e custa muito naquele momento, mas depois a sua morte/falta volta a apanhar-nos de surpresa quando num qualquer momento quotidiano nos lembramos dela e ela não está lá, quando nos ocorre de repente…
 
O poema fala ainda da incapacidade de se aceitar da morte de alguém muito querido, alguém sem o qual não se imaginava a vida e por isso há uma espécie de dissonância cognitiva quando se percebe que de facto a pessoa morreu, que impede a pessoa de assimilar esse facto, fazendo com que a morte daquele outrem seja sempre nova em si, porque em si mesmo a pessoa continua viva, mas não presente – “O único presente verdadeiro é teres partido.”

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