Um excesso de minimalismo?

Há uns tempos decidi simplificar uma série de coisas na minha vida de forma mais sistemática: doei uma parte muito significativa das minhas coisas, reduzi a quantidade de programas de televisão e vídeos que vejo, reduzi o número de roupas no meu armário, de objetos de decoração visíveis em minha casa e arranjei assim mais espaço e tempo. Mas nove meses depois, esta estratégia começa a mostrar que não é absolutamente perfeita.

sala-hotelQual é o problema de vivermos com a consciência plena de  que as coisas são mais dispensáveis do que a nossa cultura dita? O risco é transformarmos a nossa casa em algo um pouco parecido a um quarto de hotel, com quase nada de inútil visível.

As coisas inúteis têm uma função importante: lembrar-nos que a nossa vida não é toda ela lógica.

Mas mais importante que isso: o minimalismo tem muito pouco a ver com a nossa cultura que não só atualmente difunde o consumismo até como uma forma de gestão emocional, mas também que tradicionalmente tem ideias de estética de profusão e excesso quase barroco.

Em alturas de maior stress isto pode ser um problema. Como contornar a situação sem desatar a ir às compras, ou a comer todas as batatas fritas que o nosso estômago aguentar?

A premissa

f12706189aed81ed09ca169902457681O minimalismo tem, à partida, tudo para ser uma grande ideia.

Reduz a quantidade de tralha inútil em casa e traz alguma paz de espírito (pelo menos eu senti imediatamente isso quando reduzi para cerca de metade as coisas que tinha no meu minúsculo apartamento), diminui os gastos em geral (muitas coisas = muitos custos de manutenção e comprar mais coisas = custos de aquisição) e os esforços de limpeza e arrumação decrescem de forma extremamente significativa – mesmo quando estou super desorganizada, a casa nunca fica muito mal (bom, para os meus padrões, pelo menos).

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A grande promessa do minimalismo, implicita e explicitamente é que esta filosofia de vida vai criar mais calma e controlo nas nossas vidas. Vai ajudar-nos a lidarmos melhor connosco mesmos e a sermos mais coerentes com as nossas prioridades.

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A lógica é simples: ao reduzir o número de coisas que possuímos a ideia é que permaneçam as coisas que mais gostamos ou que nos são úteis; o mesmo sucede com os nossos compromissos – são os que nos fazem mais felizes que devem permanecer, devemos privilegiar a qualidade sobre a quantidade.

Isto naturalmente abranda os ritmos das nossas vidas ao mesmo tempo que nos permite de facto atingir os nossos objetivos e dar espaço para as nossas prioridades.

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Fantástico. Então qual é o problema?

Na minha opinião a questão é cultural. Temos duas coisas a “dificultar” esta tarefa, ou por outra, que nos obrigam a repensar a forma de aplicação desta filosofia: a nossa tradição cultural e a nossa cultura atual.

1. tradição cultural

O minimalismo tem uma raíz cultural asiática muito clara, com ênfase na tradição zen japonesa. A estética é muito própria e muito diferente da nossa, com conceitos que nos soam tão estranhos como wabi sabi (a apreciação de formas “imperfeitas” por vezes “inestéticas”, pela sua “naturalidade”), mas também uma obsessão pela perfeição e pelo vazio que nos são estranhas.

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Esta “obsessão” tem obviamente muitas vantagens e produz vários insights importantes, mas é quase incompatível com a nossa “obsessão” com a cor e padrões, com o nosso gosto pela profusão e variedade.

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Uma não é melhor que a outra (nem vice versa), são apenas diferentes – mas aquilo que nos conforta é determinado em grande medida por padrões culturais.

Acrescente-se que o nosso estilo decorativo não é em geral muito “direitinho”, havendo até nos programas de decoração (por exemplo) um certo cuidado para não colocar as coisas muito certinhas (com o us de diagonais e de almofadas de se afofam e atiram para sofás e mantinhas que são “deixadas” em cima da mobília”), exatamente para deixar as pessoas confortáveis e à vontade num espaço que é, pelo menos aparentemente, “vivido”.

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2. cultura atual

Atualmente vivemos também numa cultura de abundância e consumismo. A aquisição de objetos materiais serve frequentemente na nossa cultura para lidar com problemas emocionais e ansiedades existenciais, como se a obtenção de um objeto fosse a obtenção imediata da solução que queremos.

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São frequentes raciocínios do género: se estou insatisfeito/a com o meu corpo/saúde compro uma subscrição anual para um ginásio e uns ténis caros novos (o que frequentemente não resulta no uso dos mesmos); se não gosto da minha casa, compro uma peça de decoração nova (em vez de por exemplo (re)organizar a casa); se me sinto feia ou infeliz, compro uma peça de roupa/sapatos/maquilhagem nova (o que frequentemente cria uma sensação imediata de bem estar antes de se voltar para a insatisfação minutos depois).

50c1e9751e6241e340957d04d5cb6b26Não é uma mera futilidade, atenção. A ação de ir, por exemplo, procurar uma peça de roupa nova, além de efetivamente distrair do problema em mãos que pode ser demasiado pesado no momento para se enfrentar, efetivamente funciona como uma atividade completamente alheia à questão de que se pretende fugir e gera um momento de satisfação. Pode questionar-se se esta é a melhor forma de lidar com qualquer problema, mas o facto é que existem alguns benefícios na estratégia.

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Então e depois?

O que acontece é que algo que dito agora parece óbvio, mas que me levou algum tempo a consolidar: a forma como se aplica o minimalismo em Portugal não pode ser a mesma com que se aplica o minimalismo no Japão ou nos Estados Unidos. Além de uma celebrada componente pessoal nesta questão, há indubitavelmente uma questão cultural e é preciso encontrarmos o meio termo aqui.

Onde está o meio termo? Confesso que não faço ideia e que é possível que leve algum tempo a descobrir. Para já tenho sentido algum conforto adicional quando reponho coisas que tinha tirado da minha vista novamente à vista, confesso que sinto algum conforto por poder ver as minhas plantas e as garrafas de vidro da janela do meu quarto. Não deixei de gostar do espaço vazio que criei, mas de alguma forma, descobri que estes objetos me dão algum conforto e tenho tentado recuperar um pouco desse valor sem cair no excesso de ter tralha.

Para já não sei qual é a solução mágica, mas sinto que preciso de ir um pouco na direção oposta ao que tenho feito até agora.

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Também não sei como resolver a questão da fuga para o consumismo, agora que me desabituei completamente de usar compras de qualquer tipo como um escape; sinto que me falta uma solução fácil e inconsciente para os meus problemas (o que por vezes é útil), sobretudo quando acresce que eu também deixei de ver TV no meu computador.

Esta questão não é de somenos importância e parece-me meritória de uma maior reflexão, mas para já não tenho qualquer ideia sobre como resolvê-la.

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Em suma, pode ser avisado considerar que a busca de ideais (e o minimalismo cai nesta categoria) pode precisar de alguma reflexão e adaptação pessoal, mas também cultural. Somos quem somos e vivemos onde vivemos: não faz sentido contrariar tudo isso só porque ouvimos dizer que outras pessoas chegaram à paz interior por uma via que nós não podemos seguir da mesma maneira.

 Ver também:

http://bemorewithless.com/the-downside-of-minimalism/

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