[Um ano sem televisão] um resumo

Em 2015 decidi enfrentar um grande desafio em vez de fazer diferentes desafios de 30 dias: um ano sem TV. Aqui fica o resumo desta grande aventura.

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Este foi um desafio longo e, na verdade, inacabado, na medida em que a minha autorregulação está longe de ser perfeita, especialmente no que se refere a esta temática.

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No início do ano, a situação era complicada. Via séries e vídeos a qualquer hora do dia: ao acordar, como forma de me motivar a sair da cama, enquanto cozinhava, enquanto lavava os dentes, antes de sair de casa, ao voltar a casa, durante o trabalho…

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O discurso interno era que eu precisava de “ruído de fundo” para trabalhar e gostava de ruído de fundo em geral (razão pela qual gosto de trabalhar em cafés, por exemplo). O problema é que não estava conseguir funcionar sem ter esta “muleta”, nem conseguia funcionar completamente porque ficava completamente agarrada. Isto tinha custos pessoais enormes e em termos de produtividade, a coisa também não estava fácil, sobretudo relativamente ao meu doutoramento que parecia completamente encravado.

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Logo na primeira semana, com todas as dificuldades e fracassos que esta envolveu, referi que sentia “mais vontade de trabalhar” (em especial de escrever) e “mais ligada às pessoas à minha volta e à minha vida” e na segunda semana, percebi que a necessidade de ver séries e coisas no youtube compulsivamente estaria muito ligada à minha necessidade de fugir a uma realidade que não me agradava e que eu não conseguia controlar (nomeadamente o meu PhD) e que a forma de lidar com esta questão estava não só no autocontrolo para não fazer o comportamento, mas também associada a outros comportamentos (uso prolongado de facebook, uso de transportes públicos… etc).

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No entanto, apesar da rapidez com que estas epifanias aconteceram de um ponto de vista racional, a verdade é que este foi um desafio com muitos, mesmo muitos avanços e recuos. No princípio temia tornar-me numa pessoa menos interessante por não estar tão a par da “pop culture” e tinha esta ambiguidade face a um desafio que eu sabia que era muito importante para mim. No final do mês de janeiro, comecei a compilar uma lista de coisas que poderia fazer em vez de ver TV que no início de fevereiro cheguei mesmo a pendurar num local bem visível em casa.

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Na segunda semana de fevereiro sentia-me um total fracasso e completamente incapaz de lidar com as dificuldades deste desafio, sentia-me completamente impotente face ao meu vício – foi a altura em que fui ao google tentar perceber “como raio é que os outros fazem isto?” e comecei a ler artigos científicos sobre a temática e isto compensou, porque na semana seguinte consegui um grande avanço no meu desafio, ao mesmo tempo que continuei a ler sobre a adição à TV e à internet.

No final de fevereiro escrevia:

“Comecei a conseguir desligar dos conteúdos audiovisuais (depois de lutar muito (e falhar quase todos os dias) com a dificuldade em os deixar) e a sensação que tive foi de estar acordada e… isto vai soar patético, mas também *livre* e capaz de fazer tantas outras coisas. Senti-me mais em controlo da minha vida e mais capaz e criativa – exatamente o oposto daquilo que eu achava que poderia acontecer.”

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Na primeira semana de março, o foco nas dificuldades com o vício começou a mudar para um foco naquilo que estava a produzir alternativamente, mais especificamente, um maior minimalismo que se traduziu numa enorme quantidade de coisas que fui retirando de minha casa e doando a instituições e amigos, vendendo no OLX ou deitando fora. Na segunda semana de março, percebi que este vício está muito associado ao cansaço mental e dores nos olhos que às vezes sinto. Foi uma boa semana e comecei a usar mais entusiasticamente o audible para ouvir livros e comecei a sentir o meu doutoramento a avançar realmente e no final de março tornei-me muito mais ativa fisicamente como consequência de me ser mais fácil não ver ou parar de ver TV. Março foi portanto um excelente mês para este desafio.

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No início de abril decidi que queria ter uma semana sem recaídas, mas o que aconteceu foi que este foi um mês de retrocessos com a segunda semana a ser desesperante.

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Apesar das dificuldades, mantive-me na tarefa. No princípio de maio as coisas começaram lentamente a melhorar, o trabalho do doutoramento continuou a avançar firmemente e a minha casa foi ficando cada vez menos atafulhada de coisas que não uso. Fui sentindo que com um menor uso do pc para entretenimento, conseguia fazer coisas melhores no meu tempo livre e que me estava lentamente a tornar mais organizada ao longo do mês.

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Em junho comecei a ler e ouvir mais coisas sobre gestão de tempo e instalei a app “rescue time” no meu pc. Continuei a dar coisas que não usava (parece impossível, mas é verdade!), inscrevi-me num ginásio e estive mais com os amigos – mas continuei a ter recaídas.

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No entanto, em julho voltei a ter retrocessos, que fizeram com que não só desligasse o meu modem, mas também o retirasse fisicamente de casa, para evitar ficar presa ao vício.

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Em agosto decidi fazer férias também da rigidez nesta missão – e percebi que o vício tem vantagens, nomeadamente:

“Por muito que me queira convencer do oposto, há algumas vantagens fantásticas com o uso da internet e do youtube, nomeadamente, do ponto de vista da criatividade, motivação, foco, desenvolvimento de estratégias, informação… etc. O meu problema é que não sei parar e como diz a Martha Stewart, não basta ter boas ideias, é preciso pô-las em prática.”

Mas ainda assim, a coisa não compensa pelo que decidi retirar a internet de casa por completo no último trimestre do ano – mas setembro acabou por não permitir esta opção pela enorme quantidade de projetos a terminar e a necessidade de fazer reuniões online.

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Mas outubro foi menos produtivo ainda deste ponto de vista, e a principal conclusão do mês parece-me ser:

“Este tipo de coisas só me acontece quando estabeleço objetivos excessivamente altos e irrealistas para mim mesma. Não me consigo permitir descansar e fazer coisas mais divertidas durante mais tempo e acabo por roubar o tempo que consigo ao trabalho, porque perco capacidade de concentração e as coisas deixam de funcionar.”

Em novembro vi-me quase voltar à estaca zero, mas agora com novos recursos e estratégias para lidar com este revés.

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Dezembro marcou o final deste desafio e a conclusão da minha tese. Continuo a usar a tv na internet quando preciso de “desligar o cérebro”, algo para o qual ainda não tenho atividade alternativa, mas acredito que este ano foi super importante para mim e que sem este desafio não teria conseguido acabar o meu doutoramento.

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Este desafio foi bastante difícil para mim, com muitos avanços e retrocessos, muitos momentos em que me senti sem qualquer tipo de poder e muitas dificuldades. No entanto, acredito que foi um excelente desafio, sem o qual jamais teria conseguido concluir a tese de doutoramento. Também me senti mais ligada às pessoas na minha vida e acho que consegui ser uma professora mais competente e atenciosa com os meus alunos e colegas, mas capaz de pensar na minha vida e nas coisas que fazem ou não sentido para mim.

Só por isto, 2016 já promete.

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