Estratégias para lidar com o vício da TV/das séries

No ano passado assumi que tinha um problema e passei o ano sem TV, o que foi um enorme passo para mim. A minha vida mudou radicalmente para melhor; mas de vez em quando tenho uma recaída. Aqui fica a minha reflexão mais de meio ano depois do grande desafio.

No final de 2014 sentia-me “presa” em vários aspetos da minha vida. Sentia que não conseguia avançar com os projetos que tinha em mãos; sentia que não tinha tempo nem disponibilidade para os meus amigos e família como devia e sentia que não tinha forças para fazer as coisas que queria e tinha de fazer.

Na altura sentia que não conseguia deixar o vício das séries. Não estou a exagerar: o vício das séries e do youtube (já que estamos neste tópico). A razão porque lhe dou esta conotação de patologia é porque desde o momento em que acordava e até adormecer eu tinha o pc comigo sempre a dar alguma forma de “televisão”: fossem clipes de youtube, episódios de series que estava a acompanhar (e estava a acompanhar mesmo muitas séries) ou até episódios repetidos de coisas que já tinha visto. Tudo para não estar em silêncio e comigo mesma.

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Na altura a minha racionalização eram:

  • “sou uma multitasker.”
  • “Preciso de muitos estímulos para me poder concentrar”
  • “Preciso de estar a par da pop culture para pode falar mais direta e eficazmente com os meus alunos”
  • “é uma forma de cultura”
  • “é uma forma de desenvolver a minha cultura geral”
  • “é uma alternativa a ouvir música, porque eu na maior parte do tempo não vejo TV, ouço TV”

…And so on!

A verdade é que não conseguia funcionar sem TV, mas esta atividade – ao contrário do que eu queria admitir – não me deixava muita disponibilidade mental para escrever, para refletir, para estar completamente presente no momento. Irritava-me quando me tentavam ligar durante o dia. Chateava-me ter de sair da secretaria a meio de um episódio. Quando estava em casa invariavelmente acabava no sofá, deitada, com o pc ao lado ou por cima de mim e a comer qualquer coisa.

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Parece um exagero, mas não é. Passei dias seguidos a ver séries de enfiada, enquanto o trabalho acumulava em pilha e os prazos se perdiam porque não conseguia parar de ver uma série. Deixei de sair algumas vezes porque não me sentia com energia e ficava a ver vídeos no youtube. Adiava iniciar o trabalho porque queria ver alguma antes para “preparar o cérebro”, como uma forma de “aquecimento mental”.

Turn off your tv Reclaim your world

2015 foi um ano duríssimo deste ponto de vista, porque decidi deixar mesmo de ver TV, quando após um desafio de 30 dias percebi
a) a enorme dificuldade sentida ao deixar a TV;
b) o quão mais rica a minha vida seria se eu usasse o meu tempo para fazer coisas diferentes.

Apesar de ter mudado completamente a minha vida em 2015 (incluindo finalmente acabar a tese de doutoramento), não me “curei” desta tendência para ficar agarrada a conteúdos televisivos.
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No entanto, mais de meio ano depois de concluir o desafio, algumas coisas mudaram.

  1. Deixei de ver vídeos diretamente do youtube.
    Faço download de todos os vídeos que quero ver e vejo mais tarde no meu computador. Isto torna o visionamento muito mais intencional e construtivo. Vejo menos coisas que não interessam e vejo mais conteúdo educativo; acabo por ir buscar entretenimento a outros lados.
  2. De vez em quando tenho uma recaída; então escolho outra forma de procrastinação.
    De vez em quando, o que começa por ser “ver um episódio de Modern Family”, descamba para “rever a temporada toda” ou mais. Quando me apercebo que isto está a acontecer (às vezes demora), começo por apagar o que tenho a dar. Depois levanto-me e vou fazer outra coisa qualquer durante meia a uma hora.
    Normalmente isto acontece como mecanismo de procrastinação perante tarefas chatas. Quando me apercebo que é esse o caso (às vezes demora, porque a negação tem muita força!), vou fazer algo que não contribua para a tarefa que estou a procrastinar, mas que seja distinto de ver series; algo que produza realmente algum efeito na minha vida, como lavar a loiça, arrumar qualquer coisa, fazer um recado fora de casa, ou organizar fotografias ou email. Isto faz com que consiga na mesma procrastinar (é um fenómeno que acerca do qual ainda estou a refletir e portanto que não combato per si), mas com que não me sinta tão mal comigo própria por ter completamente desperdiçado o tempo e não tenha produzido nada, e ainda vou ter de fazer tarefas como lavar a loiça a seguir.
  3. Consigo estar em silêncio e sinto-me muito mais ligada à minha vida e às pessoas que me rodeiam.
    Isto pode parecer conversa de chacha, mas não é. Tenho mais tempo e mais disponibilidade para tratar das plantas de minha casa, para escrever emails ou preparar surpresas para as pessoas que me rodeiam. Ainda tenho muitas arestas para limar, mas sinto que de facto estou a dar mais atenção às coisas realmente importantes.
  4. Tenho menos dores de cabeça.
    Ainda acontece com alguma regularidade ter cefaleias e enxaqueca, mas a mudança de hábitos que acompanhou o deixar de ver TV teve um efeito muito claro na diminuição deste tipo de dores. Não sei exatamente o que aconteceu, mas houve aqui um impacto claro (a minha aposta principal está na melhoria dos hábitos de sono, porque comecei a separar melhor os tempos, a ter menos coisas atrasadas para fazer e melhorei muito a qualidade do meu descanso).

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Existem diferentes níveis de adição à internet e a conteúdos televisivos (youtube, series, etc.) e até acho que para as (poucas) pessoas que conseguem usar estes recursos de forma intencional e com moderação, há enormes vantagens na sua utilização. No entanto, acredito que a adição à internet e TV (na forma de youtube e series online) está a aumentar de forma muito significativa.

Temos internet no portátil, no tablet, no telefone, no relógio. Não conseguimos deixar de estar ligados nem enquanto conduzimos, quando estamos entre amigos/família/namorados, quando caminhamos na rua.

Esta incapacidade de desligar pode ter custos elevados e penso que uma reflexão generalizada acerca deste tema é mais do que necessária – até que ponto ao nunca desligarmos da internet, não estamos simplesmente a evitar realmente ligarmo-nos à nossa própria vida, com medo daquilo que possamos encontrar?

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Algumas referências úteis:

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