À procura da paz interior

Em 2016, especialmente desde a entrega da tese de doutoramento (foi quando voltei a sentir que “tinha vida”) comecei a sentir-me também bastante ansiosa sem perceber bem porquê. Então decidi perguntar ao Google como se encontra a paz interior. Claro. Porque o Google sabe tudo.

mindfulness (1).jpg

Dizem que não há nada que a internet/o Google não saiba – então decidi testar esta teoria com uma pergunta que me parece que há de ser pertinente para muitas pessoas: como encontro a paz interior?

As respostas que aparecem são imensas e em diversos sites aparecem diferentes abordagens a este conceito de paz interior, sendo que predominam as “checklists” e os “bullet points” (uma compilação da qual partilho no final do post).

Apesar de toda a utilidade das sugestões, gostava de partilhar algo que me ocorreu nesta busca e de que também eu sou culpada. Nesta sociedade do conhecimento, de informações rápidas e dicas práticas, de mensagens contadas ao caracter, parece-me que precisamos cada vez mais de um fio condutor, uma lógica a que muitos chamarão de “enquadramento teórico”ou “filosofia de vida” e que não se coaduna com respostas rápidas, requer reflexão pessoal, tempo e atitude para refletir.

Sem esta “razão de ser”, que torne coerentes as técnicas que empregamos para lidar com a nossa ansiedade e que faça com que estas práticas sejam mais ou menos intuitivas estamos a aplicar meras panaceias que:

a) dificilmente mantemos além das primeiras tentativas e
b) nada resolvem a longo prazo.

Nesta temática, à exceção dos textos geralmente longos e bem estruturados que a internet (à semelhança dos livros) nos pode oferecer para lermos e refletirmos, não há nada que o Google saiba realmente – porque este não é um dado universal, é uma busca subjetiva e muito variável, mesmo ao longo da vida.

4a72f9b38461feca9d4095ce57f73045.jpg

O equilíbrio de cada um é decidido individualmente e é idiossincrático, momento a momento

Thich Nhat Hanh, simplicou as suas regras com

“Smile, breathe and go slowly.”

Agora cabe a cada um de nós descobrir o que é que funciona para si, sendo que, para mim, o mais importante é nunca desistirmos de procurar.

74387_20130220_180650_581195_504988676213826_192340525_n.jpg

As sugestões do Sr. Google

As várias prescrições/sugestões de ação que encontrei online não me parecem todas igualmente boas ou aplicáveis, mas vou partilhá-las indiscriminadamente, porque cada pessoa saberá o que melhor se adequa a si. Em geral, parecem-me poder ser organizadas nas seguintes categorias:

  1. Focar o essencial
  2. Refletir sobre/desenvolver valores pessoais 
  3. Mindfulness/viver o momento presente
  4. Ajudar outras pessoas
  5. Praticar a gratidão
  6. Dar atenção e respeitar as emoções

focus.jpeg

1. Focar o essencial

Este ponto prende-se com tentar viver com o essencial apenas, dispensando “extras” de vários tipos (os estóicos chegam ao ponto de sugerir viver com algum desconforto para aprender a valorizar o que é mais importante). Focar o essencial também tem a ver com permitir tempo para as coisas/atividades/áreas de vida que são mais importantes e que realmente fazem diferença para nós.

things-you-should-focus-on.jpg

  • Fazer decluttering com regularidade.
  • Usar pelo menos 10 minutos por dia para organizar coisas
  • Manter a casa limpa
  • Throw out, sell or donate everything you don’t need.
  • Pensar naquilo que realmente precisamos
  • Não “consumir” o que não precisamos/não nos faz bem (em termos de coisas, atividades, pessoas, etc.)
  • Organizar tudo o que se tem para fazer
  • Estabelecer 3 tarefas diárias e cumpri-las escrupulosamente o mais cedo possível no dia. Isto inclui a necessidade de evitar o multitasking e a importância de tratar com respeito e importância o tempo de descanso. Inclui ainda a necessidade de aprender a dizer não e a selecionar o compromissos que seguimos.
  • Ficar na cama alguns minutos antes de começar o dia
  • Escrever os pensamentos que estão sempre a surgir num papel e depois amarrotar esse papel e pô-lo na reciclagem.
  • Realizar que não há nenhum motivo para preocupações: cada pessoa possui tudo o que é necessário para sorrir.
  • Viver com simplicidade – descobrir o que é essencial para cada um e dispensar o resto

personal-growth-banner.jpg

2. Refletir sobre/desenvolver valores pessoais

Pensar nos valores e objetivos de vida, refletir bem sobre eles, de forma a poder escolher melhor as atividades do dia a dia, indo ao seu encontro é frequentemente referenciado como uma das formas de desenvolver um sentimento de paz interior.

Personal-Values-Quote.png

  • Praticar gratidão (pelos outros, pelas coisas que possuímos, por oportunidades, etc.) – ver o ponto 5. relativamente à prática de gratidão
  • Praticar paciência e aceitação
  • Praticar a empatia e a compaixão (com os outros e connosco mesmos)
  • Observar os pensamentos e compreender que podemos mudar os nossos pensamentos sempre que quisermos.
  • Experimentar coisas novas
  • Escrever um diário
  • Partir da ideia do tipo de vida que se quer levar e depois basear os outros objetivos nessa mesma ideia
  • Moderar as nossas convicções
  • Ser tolerante
  • Ser calmo/a
  • Criar um commonplace book, uma coleção de citações, ideias e passagens que são de especial inspiração para o/a autor/a, compilada e organizada, de forma a conseguir-se aceder à informação sempre que as pessoas sintam que precisam. Podem fazer-se secções de inspiração, de desenvolvimento pessoal, de relações ou trabalho; todas as pequenas coisas que nos inspiram podem integrar o livro.
  • Desenvolver uma filosofia pessoal e deixar que esta nos guie no nosso quotidiano e decisões que tomamos.
  • Fazer um diário incoerente – não para relatar a vida tal como ela ocorre, mas para recordar e refletir sobre as ideias, observações e epifanias que uma pessoa considere relevantes no seu quotidiano.
  • Procurar o perdão e não a vingança. “Live in the present, not the past”

  • Refletir antes de agir: se alguém nos magoar, termos a capacidade de não reagir com raiva ou violência
  • Ser a mudança que queremos ver no mundo (Ghandi).

mindfulness_poster_UK

3. Mindfulness/viver o momento presente

“We have more possibilities available in each moment than we realize.”
– Thich Nhat Hanh

A ideia por trás deste ponto é que nós acabamos muitas vezes por não viver o momento presente porque temos a mente ocupada com outras coisas – mas estes pensamentos são meras ilusões e raramente resolvem alguma coisa, pois apenas o presente é real.

mindful (1).jpg

  • Do the next right thing
    A ideia atrás deste conceito é muito interessante! Quando estamos em redemoínho, (mental ou emocional), não é fácil fazermos sempre a coisa certa. Os erros acontecem e às vezes comportamo-nos de uma forma que é menos que ideal. Para conseguirmos manter-nos no nosso caminho a única opção é fazer a próxima coisa certa. Este conceito é muito interessante porque implica não esquecer, mas ao mesmo tempo perdoarmo-nos pelos nossos erros. É a capacidade de manter cognitivamente a ideia de que fizemos algo mal, mas emocionalmente não sentirmos a necessidade de nos punirmos o tempo todo por isso ou de cada vez que nos lembramos do sucedido.

meditation google

  • Meditação

    • Fazer algo que nos deixe meditativos
    • Arranjar tempo para meditar, mesmo que apenas 5 minutos
    • Recitar mantras
    • Uma vez por dia despender 10 minutos num local calmo, como uma árvore ou um parque, um sítio onde uma pessoa se possa sentar com calma e sem distrações.
    • Meditação zazen (sitting medidtation) – todos os dias passar algum tempo apenas a estar sentado, a estar presente.
    • Tornar meditativas tarefas como cozinhar ou limpar, tornando-as como alvo de atenção plena (mindfulness): quando uma pessoa faz estas tarefas, não pensa em mais nada, faz essas mesmas tarefas apenas, concentrando-se no que está a fazer.
  • Praticar a atenção plena
    • Comer o pequeno almoço lentamente, sentado/a à mesa, em vez de levar qualquer coisa para o caminho antes de sair de casa
    • Saborear lentamente uma chávena de chá
    • Sentir a textura e suavidade dos lençóis antes de sair da cama
    • De se der conta da mente a “desviar-se” para um problema – seja em modo de preocupação, seja em modo de resolução, trazer-se para o momento presente, perguntando-se: tenho um problema agora neste momento?
    • Reparar na forma como o ar fresco do exterior toca na cara, e inspirar profundamente um par de vezes para absorver bem a sensação.
    • Fazer uma coisa de cada vez, mesmo que se tenho muitas coisas para fazer: aproveitar e gozar bem aquilo que se está a fazer de cada vez.
    • Fazer algo lentamente – e perceber que pode ser mais divertido do que quando se faz a despachar.
    • Descobrir algo de belo no meio do caos, como o amor entre os membros de uma família muito ruidosa, ou uma simples gota de chuva a cair na janela à medida que se navega pelo tráfego denso de um dia de mau tempo.
    • Segurar uma pedra suave na palma da mão e sentir-se estável e “grounded”.
    • Fazer um intervalo sem fazer mais nada que não seja respirar e notar pequenos detalhes no seu ambiente – a suavidade do tapete depois de limpo, a forma como o sol passa a janela e deixa sombras na sala ou na mesa de trabalho… etc.!
    • Conduzir com os vidros abertos e sentir o ar fresco a bater na cara.
    • Desligar o telemóvel, independentemente das chamadas ou mensagens que possam não se ver no momento, porque se quer fazer algo com atenção plena.
    • Focar simplesmente o cheiro do café a sair da cafeteira.
    • Fechar os olhos e dançar até sentir as veias a pulsar.
    • Desligar todos os aparelhos eletrónicos e ler sem distrações.
    • Fazer uma coisa de cada vez: esta regra será familiar às pessoas que já tenham visto coisas cobre Zen, a ideia de single-task em vez de multi-tasking. O provérbio zen diz que “quando caminhares, caminha; quando comeres, come.”
    • Fazer coisas com calma e intenção. Fazer uma tarefa de cada vez, mas sem despachar as tarefas: levar o seu tempo e mover-se devagar. Fazer com que as suas ações sejam deliberadas e não apressadas e aleatórias. Isto requer prática, mas ajuda a focar a tarefa.
    • Fazer algo por inteiro: por a mente completamente na tarefa. Não passar para a tarefa seguinte até se ter completado o que se tem a faze. Se por algum motivo não se puder evitar ter de fazer algo de diferente entretanto, tentar organizar as coisas. Por exemplo, se se tem de preparar uma sanduíche, não começar a comer antes de arrumar tudo o que se pôs fora de sítio para preparar a sanduíche, de modo a poder fazer-se tudo por completo de cada vez.
    • Usar a corrida como uma forma de estar no momento; pode usar-se qualquer atividade da mesma forma, desde que se faça de forma regular e se pratique o “estar presente”.elizabeth-gilbert-quote.jpg
  • Transformar tarefas diárias em tarefas terapêuticas, como por exemplo tomar banho.
  • Fazer um passeio sem destino prévio, só para ver o que pode ser visto.
  • Almoçar sem pensar no trabalho.
  • Fazer um pequeno vídeo de um das crianças da família e vê-lo a meio do dia quando o mundo parece estar a andar muito depressa.
  • Ver coisas na natureza, deixar-se sentir intrigado/a e maravilhado/a face a qualquer coisa simples que não tenha sido alterado ou modificado pela ação humana.
  • Fazer uma “missão alegria” – procurar fazer algo apenas pela possibilidade de experienciar plenamente a alegria
  • Fazer sauna e deixar o stress derreter
  • Fazer tempo para algo que se queira mas para a qual constantemente acha que não se tem tempo
  • Acender uma vela ou várias velas
  • Estar deitado/a no final do dia sem fazer um inventário mental das coisas que correram mal durante o dia ou que podem correr mal no dia seguinte
  • Observar o que se consome inconscientemente
  • Pagar tudo com dinheiro
  • Cozinhar
  • Substituir o café ou chá diário por uma bebida quente de limão e mel
  • Parar de acreditar que a forma como perceciona as coisas é a forma como elas são na realidade
  • Procurar a alegria na simplicidade do quotidiano.
  • Ter cuidado com o que se procura, pois irá encontrá-lo aconteça o que acontecer.
  • Viver em alegria –  é difícil ser violento com aquilo que se perceciona como belo, maravilhoso e alegre.
  • Cumprimentar o sol quando se abrem as cortinas ou janela pela primeira vez
  • Resistir à tentação de passar o tempo a olhar para o telemóvel. Olhar para o mundo à volta e proteger o próprio sentido de paz interior de sentimentos de comparação com os outros ou medo de estar a perder alguma coisa (FOMO)
  • Fazer menos coisas: não quer dizer ser preguiçoso/a, mas simplesmente, fazer um menor número de coisas para poder prestar mais atenção àquilo que se está efetivamente a fazer.
  • Deixar espaço entre as coisas que se agendam: tem a ver com a ideia anterior, para que se possam incluir imprevistos e para precaver a possibilidade de uma tarefa demorar mais tempo que o previsto.
  • Criar rituais: os rituais criam um sentido de importância nas pequenas coisas que fazemos diariamente, lembrando-nos que lhes devemos dar a nossa completa atenção. Cada um de nós pode criar os seus próprios rituais.
  • Designar tempo para certas coisas, criar uma rotina. Se algo é importante o suficiente para ser feito regularmente, considere designar um tempo específico para essa mesma atividade.

5-steps-to-letting-go-banner

4. Ajudar outras pessoas

579613_10150828136554472_413518023_n

  • Reparar numa boa ação que um estranho faça por outrem
  • Ver um colega ficar orgulhoso por ter feito algo bem e sentir-se feliz por ele/a.
  • Ouvir alguém falar
  • Perdoar alguém não apenas por palavras, mas por realmente sentir compaixão por essa pessoa.
  • Deixar outra pessoa ter a sua opinião: saber que se pode honrar a opinião dos outros sem que isso implique mudar ou comprometer o seu próprio ponto de vista
  • Estabelecer contacto ocular com um desconhecido e sentir-se ligado a um mundo maior que o seu próprio.
  • Escutar alguém falar – escutar mesmo – sem pensar no que se vai dizer a seguir
  • Abraçar alguém tempo suficiente para ter significado
  • Dar o benefício da dúvida a alguém que se ama, para não se ficar a pensar mais nos assuntos e manter uma relação pacífica.
  • Procurar amar e não controlar os outros.
  • reconhecer e dar atenção à presença dos outros. Quando perguntamos às pessoas como estão, ouvir com atenção.
  • Sorrir e servir os outros. Os monges zen passam parte dis seus dias a servir os outros , o que lhes ensina humildade e assegura que as suas vidas não são centradas em sim mesmos, mas que se devotam aos outros. Podem ser coisas simples como pequenos atos de gentileza, serviço ou voluntariado.

lesbian couple hugging

5. Praticar a gratidão

  • Começar cada dia com uma oração de gratidão
  • Ouvir a sua música favorita a caminho do trabalho e lembrar quando se ouviu a mesma pela primeira vez, com quem se estava e como se sentiu
  • Apreciar algo que tomamos por garantido , como os nossos pés por nos levarem onde precisamos de ir
  • Escrever uma nota à mão, de forma refletida, mesmo quando se poderia usar o email, porque uma pessoa se sente mais ligada aos outros quando o escreve no papel
  • Sentir gratidão pelos amigos novos com ideias fantásticas e deixá-los inspirar-nos
  • Segurar a mão de outra pessoa com ambas as mãos quando agradecemos a essa mesma pessoa
  • Ligar a pais e familiares para agradecer tudo o que já fzeram por si, sem que nenhuma ocasião solene seja necessária
  • Dizer a alguém que se sente afortunado por os conhecer.
  • Praticar a aceitAção e a gratidão
  • Dar graças pelas refeições
  • Enviar amor para o seu próprio corpo enquanto se cuida de nós mesmos lavando os dentes ou a cara, etc.

mindfulnesssafe

6. Dar atenção e respeitar as emoções

  • Expressar os próprios sentimentos e não sentir pressão para explicar ou justificar os mesmos (geralmente é pressão que autogeramos).
  • Distanciar-se de conversas e crenças negativas
  • Fazer exercício
  • Saber que se fez um bom trabalho e usar uns minutos para usufruir de satisfação pessoal.
  • Recordar um tempo em que se sentir em paz e voltar lá na sua própria mente.
  • Acreditar noutra pessoa quando nos diz que vai ficar tudo bem.
  • Sentir sem julgar esse sentimento, sabendo que vai passar,
  • fazer algo criativo e infantil, como colorir ou faze um postal para alguém.
  • Dizer a alguém que o/a amamos não para ouvir de volta, mas porue o sentimos profundamente e o queremos expressar.
  • Encontrar a sua própria definição de paz interior, nem que seja dar pinotes no meio da rua.
  • Ouvir uma música de que gostemos muito e criar uma montagem mental dos momentos que nos fizeram felizes.
  • Estarmos conscientes das nossas emoções
  • Socializar com qualidade e ter tempo para nós mesmos (avaliar as pesosas com quem estamos a passar tempo e porquê, se não nos sentirmos confortáveis e confiantes numa relação, minimizar o contacto com essa pessoa).
  • Parar de interagir com pessoas que não saõ influências positivas nas nossas vidas, sem se sentir culpado por isso.
  • Pormo-nos antes do nosso trabalho, sempre que possível.
  • Criar objetivos realistas
  • Parar de nos tentarmos policiar a nós mesmos:
  • Antes de sair de casa tocar uma música alegre como “Celebrate” ou “Happy” e dançar.
  • Aproveitar o momento para sorrir sempre que se lembre. O sorriso cria sentimentos de contentamento e bem estar no corpo todo.

“Before enlightenment chop wood and carry water. After enlightenment, chop wood and carry water.” – Wu Li

  Referências

Recomendo ainda:

Um pensamento sobre “À procura da paz interior

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s