91 anos não tornam as despedidas mais fáceis

A D. Aninhas era uma menina traquinas no corpo de uma senhora de idade, e uma Senhora ao mesmo tempo. Gostava dos pequenos prazeres da vida e contornava as regras que lhe tentavam impor com o sorriso malandro que os bisnetos exibem com maior frequência.

K9fJD1501665597

Tinha 91 anos e era a presença discreta e incontornável na família. Quem não a tratasse por “mãe”, “vó” ou “bivó”, tratava-a por “D. Aninhas”, o que incluía noras, sobrinhos emprestados e todas as pessoas que lidavam com ela.

Gostava de lambarices que lhe faziam mal ao colesterol e triglicerídeos. Para que a filha sempre zelosa da sua saúde não lhos levasse, escondia os chocolates no quarto e debaixo da manta na sala enquanto via o programa da tarde. Ainda hoje sou incapaz de beber Bailey’s sem me lembrar do comentário de um dos seus netos à velocidade com que tinha bebido um copo “ó vó! isso não é café com leite!”. D. Aninhas riu-se de marota como só ela sabia fazer, num misto de cumplicidade e desafio: “anda-me caçar!”

A idade avançada vinha anunciando que um dia poderia partir, mas era como um sino na distância. Ela estivera sempre lá, fazia parte do cenário, era incontornável. A sua partida embora pudesse ser equacionada de forma puramente hipotética nunca fora levada a sério.

E então ela adoeceu. E suavemente começou a despedir-se e a anunciar a sua partida de forma concreta. Esteve lá na fase do choque: deixou-se ficar, mas começou a partir. Toda a gente se pode despedir, mesmo sem saber a hora e o dia marcados. Apesar de ninguém lhe ter dito a gravidade da sua situação, eu acredito que ela sabia. Não havia como não saber, se ela própria já se tinha diagnosticado muito antes dos médicos.

Os netos redobraram-lhe os já abundantes mimos e a filha desdobrou-se ainda mais em cuidados e atenções.

Poderia pensar-se que teve sorte, se não fosse o muito que mereceu todos os mimos e todas as homenagens, numa vida inteira dedicada aos seus.

Não sendo meu sangue, a D. Aninhas era uma parte muito importante da minha família, era minha família.

Hoje estou longe e não a posso homenagear e ver uma última vez, mas consolo-me pensando que eu não planeava despedir-me dela de qualquer das formas. A sua alegria e vontade de viver, a capacidade de apreciar as coisas boas da vida, de dizer o que pensava num misto de simples e direta honestidade e graça sem malícia, bem como equilíbrio do sentido de dever para com os seus com a capacidade de fazer o que lhe apetecia são coisas que nunca vão deixar de fazer parte de mim.

91 anos foram muito mais do que cerca de 32500 dias: foi uma vida inteira de amor e dedicação à sua família.

Que sorte  poder ter conhecido esta grande, grande, grande Mulher.

Deixa muitas saudades, D. Aninhas.

Um pensamento sobre “91 anos não tornam as despedidas mais fáceis

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s